Objetos, fotografias e documentos preservados pela Marinha permitem reconstruir diferentes aspectos da trajetória de um dos grandes navios da Esquadra brasileira no início do século XX
O Encouraçado São Paulo deixou de existir fisicamente há mais de sete décadas, mas parte de sua história permanece preservada pela Marinha do Brasil. Fotografias, documentos e objetos pertencentes ao antigo navio integram acervos da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM) e permitem reconstruir diferentes aspectos de sua trajetória.
Incorporado à Marinha em 1910, o São Paulo foi um encouraçado do tipo dreadnought, construído nos estaleiros Vickers Sons & Maxim, em Barrow-in-Furness, na Inglaterra. Segundo o Arquivo da Marinha, o navio navegou 99.655 milhas durante sua carreira e participou de diferentes missões, incluindo viagens presidenciais, operações navais e missões de representação.
Mas é justamente nos objetos e registros preservados atualmente que surge uma outra maneira de conhecer o navio: não apenas pelo que ele fez, mas também pelos vestígios materiais e documentais que permaneceram depois de sua retirada de serviço.

O que restou do Encouraçado São Paulo
Entre as peças preservadas pela DPHDM estão objetos que fizeram parte do cotidiano do navio, incluindo itens do serviço de porcelana, da baixela e do faqueiro em prata. A coleção também possui uma arca relacionada ao encouraçado.
Esses objetos ajudam a mostrar uma dimensão menos conhecida de um grande navio de guerra.
Além de armamento, máquinas e sistemas necessários à atividade operacional, havia toda uma estrutura destinada à vida cotidiana da tripulação e ao funcionamento do navio como unidade naval.
Nesse sentido, uma peça de porcelana, um item de baixela ou uma arca podem parecer objetos comuns quando observados isoladamente. Dentro do contexto histórico do São Paulo, porém, tornam-se registros materiais associados à vida a bordo.
A própria DPHDM destaca que essas relíquias ajudam a aproximar o público do cotidiano do navio e a manter viva sua memória.


Um álbum preserva as viagens do navio
Além das relíquias, a Marinha preserva um conjunto documental dedicado às viagens do Encouraçado São Paulo.
O Arquivo da Marinha mantém o dossiê “Viagens do Encouraçado São Paulo”, classificado como um álbum fotográfico produzido entre 1907 e 1947. O acervo possui acesso livre e reúne registros de diferentes momentos relacionados ao navio.
Entre as fotografias catalogadas estão imagens do próprio encouraçado, da guarnição, de comandantes, da banda de música e de acontecimentos ocorridos durante viagens.
O inventário do arquivo registra, por exemplo, uma fotografia da guarnição em formatura durante a viagem dos Reis da Bélgica, produzida em 1920, identificada pelo código RJDPHDM ECSÃOPAULO-DE-IC-VG-65976.
Outro registro mostra o Encouraçado São Paulo fundeado ao largo da Praça Mauá, também em 1920, identificado pelo código RJDPHDM ECSÃOPAULO-DE-IC-VG-66014.
Essas fotografias não funcionam apenas como ilustrações históricas. Elas são documentos preservados pelo Arquivo da Marinha e ajudam a reconstruir visualmente a presença do navio e de sua tripulação em diferentes momentos.

A viagem que levou o São Paulo à Bélgica
Uma das missões mais conhecidas do encouraçado ocorreu em 1920, quando o navio realizou a viagem que levou o Rei Alberto I e a Rainha Elisabeth, da Bélgica, ao Brasil. A própria DPHDM destaca a missão pelo seu significado diplomático.
O Arquivo da Marinha conserva diversos registros fotográficos dessa viagem.
Há imagens do embarque do Rei Alberto e sua comitiva, da partida do São Paulo para o Brasil, da passagem da comitiva pelo navio e do encouraçado durante a viagem.
Uma das fotografias catalogadas registra o momento em que o Encouraçado São Paulo se aproximava do cais para o embarque do Rei Alberto e sua comitiva, em 1920. O item faz parte do mesmo dossiê arquivístico e possui o código RJDPHDM ECSÃOPAULO-DE-IC-VG-53825.
Outra imagem registra a partida do Encouraçado São Paulo conduzindo os Reis da Bélgica para o Brasil, também em 1920.
O conjunto de documentos permite observar que aquela missão foi registrada em diferentes etapas, desde o embarque até a viagem e a chegada ao Brasil.
Quando um navio de guerra também representa o país
A viagem de 1920 também permite observar uma dimensão que ultrapassa o emprego estritamente militar.
O Encouraçado São Paulo era uma unidade de combate, mas também foi empregado em uma missão de representação do Brasil durante uma visita oficial de autoridades estrangeiras.
Esse aspecto ajuda a compreender o papel mais amplo desempenhado por grandes navios de guerra naquele período.
O Poder Naval não estava relacionado somente à capacidade de combate. Navios também podiam participar de missões diplomáticas, transportar autoridades e representar o país em viagens internacionais.
No caso do São Paulo, essa dimensão ficou registrada tanto na documentação histórica quanto nas fotografias preservadas pela Marinha.
O que as fotografias revelam sobre a vida a bordo
O acervo fotográfico também permite observar a própria guarnição.
Entre os registros estão imagens da tripulação em formatura, do comandante a bordo, da banda de música, de postos de continência e de diferentes momentos da viagem dos Reis da Bélgica.
Uma fotografia catalogada pelo Arquivo da Marinha mostra ainda o Comandante H. A. Guilhem a bordo do Encouraçado São Paulo, enquanto outra registra o comandante e a tripulação junto ao Lord Mayor, em Portsmouth.
São registros que ajudam a visualizar a organização da guarnição e o caráter cerimonial de determinadas atividades.
Mais do que mostrar um navio antigo, essas fotografias preservam pessoas, uniformes, cerimônias e situações que fizeram parte da rotina de uma geração de marinheiros.

Um navio construído para uma nova era naval
O São Paulo pertencia ao tipo dreadnought, categoria de grandes encouraçados que marcou uma transformação importante na tecnologia naval do início do século XX.
O Arquivo da Marinha registra que sua quilha foi batida em 30 de abril de 1907, o lançamento ocorreu em 19 de abril de 1909 e a Mostra de Armamento em 23 de agosto de 1910. O navio foi incorporado à Divisão de Encouraçados em outubro daquele ano.
Sua carreira incluiu diferentes missões.
O histórico oficial registra viagens com presidentes da República, participação em exercícios, deslocamentos internacionais e, durante a Segunda Guerra Mundial, a ida a Recife, onde permaneceu como fortaleza flutuante até o final do conflito.
Ao longo de sua carreira, o navio navegou 99.655 milhas, segundo o Arquivo da Marinha.
O último capítulo veio no mar
Depois da Segunda Guerra Mundial, a carreira do São Paulo chegou ao fim.
O navio foi desincorporado da Esquadra em 1947 e vendido como sucata em 1951. Durante o reboque para a Europa, desapareceu nas proximidades dos Açores depois que uma forte tempestade rompeu suas amarras. Segundo a DPHDM, as buscas realizadas posteriormente não encontraram vestígios do encouraçado.
O desaparecimento encerrou a trajetória física do navio, mas não eliminou os registros deixados durante suas décadas de serviço.
É justamente nesse ponto que o patrimônio histórico ganha importância.

A memória de um navio não está apenas no casco
Um navio pode desaparecer, mas sua história pode continuar existindo através de diferentes tipos de registros.
No caso do Encouraçado São Paulo, a Marinha preserva objetos, fotografias e documentação histórica relacionados ao navio.
As relíquias ajudam a aproximar o público do cotidiano a bordo.
As fotografias mostram o navio, seus tripulantes e acontecimentos registrados durante sua carreira.
E os documentos permitem contextualizar datas, missões e deslocamentos.
Juntos, esses elementos formam uma espécie de memória material do encouraçado.
O São Paulo continua presente no patrimônio naval brasileiro
Mais de sete décadas depois de seu desaparecimento, o Encouraçado São Paulo continua presente nos acervos da Marinha.
A preservação de suas relíquias e de seu registro documental permite que pesquisadores, militares, estudantes e o público conheçam aspectos de uma época em que o Brasil buscava modernizar sua Esquadra e ampliar sua presença naval.
O São Paulo não existe mais como navio.
Mas permanece nas fotografias de sua guarnição, nos registros de suas viagens, nos objetos que sobreviveram e nos documentos que ajudam a reconstruir sua trajetória.
A carreira do encouraçado terminou no mar em 1951. Sua memória, porém, continua preservada em terra.
É justamente essa permanência que transforma as relíquias e os documentos do São Paulo em mais do que peças antigas: são fragmentos materiais de uma história naval que ainda pode ser estudada e conhecida pelas próximas gerações.
Leia também
Fragata Jerônimo de Albuquerque conclui primeiros testes de aceitação no mar
Créditos
Texto: Jhonanta Marcelino | Zona de Manobra
Fotos: Marinha do Brasil / DPHDM
Fontes: Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM) e Arquivo da Marinha



