A Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A. (AMAZUL) avançou nas tratativas relacionadas ao projeto do Microrreator Nuclear brasileiro, iniciativa que reúne instituições científicas, universidades, empresas e órgãos públicos no desenvolvimento de tecnologias nacionais para esse tipo de sistema.
O avanço foi registrado na Ata nº 150 do Conselho de Administração da AMAZUL, referente à reunião realizada em 25 de junho de 2026 e publicada no Diário Oficial da União em 3 de setembro. O documento informa que a empresa vem conduzindo, em conjunto com a Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha (DDNM), atividades relacionadas ao projeto.
Segundo a ata, estão em andamento estudos e análises técnicas que contribuirão para o desenvolvimento seguro do projeto, reforçando a participação da AMAZUL em uma iniciativa de relevância tecnológica e estratégica para o País.
O registro do Conselho de Administração não anuncia a construção de um novo reator nem estabelece uma data para entrada em operação. O que fica evidenciado é a continuidade dos trabalhos técnicos relacionados ao desenvolvimento do projeto.
O que é o projeto do Microrreator Nuclear
O projeto brasileiro busca desenvolver e testar tecnologias críticas aplicáveis a microrreatores nucleares. A iniciativa recebeu apoio financeiro de R$ 50 milhões, sendo R$ 30 milhões provenientes da Finep e R$ 20 milhões da Diamante Energia.
A proposta é liderada pela Diamante Geração de Energia, Terminus Pesquisa e Desenvolvimento em Energia e Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e reúne um conjunto de instituições científicas, universidades e organizações ligadas ao setor nuclear.
Entre os participantes estão o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN/CNEN), Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN), AMAZUL, Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha, Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo, Universidade Federal do ABC, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade Federal do Ceará e Instituto Nacional de Telecomunicações.
O projeto prevê a construção de uma Unidade Crítica, destinada à realização de estudos, testes e demonstrações relacionadas às tecnologias desenvolvidas.
AMAZUL amplia participação no desenvolvimento nuclear
A participação da AMAZUL no projeto não começou com a publicação da Ata nº 150.
Em novembro de 2025, o Instituto de Engenharia Nuclear informou oficialmente que a empresa fazia parte do grupo de instituições envolvidas no desenvolvimento do microrreator, ao lado da DDNM e do CTMSP, além de instituições científicas, universidades e empresas.
A atuação da AMAZUL ocorre dentro de sua missão de apoiar projetos estratégicos relacionados ao setor nuclear brasileiro. A empresa é vinculada ao Ministério da Defesa por meio do Comando da Marinha e possui participação em iniciativas do Programa Nuclear da Marinha (PNM), do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) e do Programa Nuclear Brasileiro.
No caso do microrreator, porém, é importante diferenciar as iniciativas. O projeto do microrreator nuclear brasileiro não é o reator de propulsão nuclear do futuro submarino da Marinha.
São projetos distintos, embora compartilhem competências, instituições e conhecimentos relacionados ao desenvolvimento da tecnologia nuclear.

Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha participa dos estudos
O principal elemento novo revelado pela Ata nº 150 está na atuação conjunta entre a AMAZUL e a Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha.
O documento registra que as duas estruturas vêm conduzindo estudos e análises técnicas relacionados ao projeto, com foco no desenvolvimento seguro da iniciativa.
A participação da DDNM também aparece nas informações oficiais do IEN/CNEN sobre a composição do projeto. A Diretoria integra o conjunto de instituições envolvidas no desenvolvimento das tecnologias críticas do microrreator brasileiro.
Essa participação coloca a experiência acumulada pela Marinha no desenvolvimento de tecnologias nucleares dentro de um projeto que possui aplicações mais amplas.
A Marinha brasileira desenvolve há décadas competências na área nuclear por meio do Programa Nuclear da Marinha, especialmente no desenvolvimento da tecnologia necessária à propulsão nuclear naval.
No projeto do microrreator, entretanto, a participação da DDNM ocorre dentro de uma iniciativa própria, voltada ao desenvolvimento de tecnologias para microrreatores.
Projeto ainda passa por desenvolvimento e licenciamento
O microrreator brasileiro ainda está em uma etapa de desenvolvimento tecnológico, testes e licenciamento.
Em dezembro de 2025, o IEN/CNEN realizou uma cerimônia para marcar o início formal do processo de licenciamento da construção da Unidade Crítica do projeto. A estrutura deverá ser instalada nas dependências do Instituto de Engenharia Nuclear, no Rio de Janeiro, onde também está localizado o Reator Argonauta.
A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear acompanha o processo desde suas etapas iniciais, incluindo as questões relacionadas à segurança da futura instalação. Em janeiro de 2026, ANSN, IEN e a empresa Terminus realizaram reunião para tratar dos próximos passos do licenciamento da Unidade Crítica.
Isso significa que o projeto ainda não representa um microrreator nuclear brasileiro em operação.
A etapa atual envolve pesquisa, desenvolvimento, engenharia, testes e avaliação regulatória, necessários antes de qualquer eventual aplicação futura.

Uma tecnologia pensada para diferentes aplicações
Uma das características do conceito brasileiro de microrreator é a modularidade e a possibilidade de transporte.
Segundo informações divulgadas oficialmente pelo IEN/CNEN, a tecnologia poderá ter aplicações em locais que necessitam de uma fonte de energia confiável, incluindo pequenas cidades, hospitais, indústrias e regiões isoladas. A proposta também pode reduzir a dependência de geradores a diesel em determinados contextos.
Em entrevista publicada pelo IEN, o diretor da instituição destacou ainda possibilidades de utilização em comunidades ribeirinhas, data centers e plataformas offshore, ressaltando que a portabilidade seria uma das características relevantes do conceito.
A ideia é trabalhar com uma instalação significativamente menor que uma usina nuclear convencional, permitindo estudar aplicações em locais onde grandes empreendimentos nucleares não seriam adequados.
É importante, porém, não confundir essas possibilidades de aplicação com uma definição de emprego já estabelecida. O projeto ainda está em desenvolvimento, e eventuais aplicações futuras dependerão da evolução tecnológica, regulatória e econômica da iniciativa.
Microrreatores fazem parte de uma nova frente tecnológica
O desenvolvimento do microrreator brasileiro ocorre em um momento de expansão das pesquisas internacionais envolvendo microrreatores e Pequenos Reatores Modulares (SMRs).
Embora sejam conceitos relacionados, eles não são sinônimos. Os SMRs possuem potência superior e dimensões maiores, enquanto os microrreatores trabalham em uma escala ainda menor, priorizando características como modularidade, mobilidade e possibilidade de instalação em locais específicos.
No Brasil, o desenvolvimento dessa tecnologia também dialoga com outras iniciativas do setor nuclear.
A própria AMAZUL vem ampliando sua participação em projetos relacionados ao Programa Nuclear da Marinha e ao Programa Nuclear Brasileiro, enquanto instituições como CNEN, IEN e IPEN desenvolvem pesquisas em materiais, segurança, engenharia e tecnologias de reatores.

O que a Ata nº 150 revela
A publicação da Ata nº 150 acrescenta uma informação importante ao histórico do projeto: a AMAZUL continua avançando nos trabalhos relacionados ao Microrreator Nuclear e, neste momento, mantém estudos e análises técnicas em conjunto com a Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha.
O documento não apresenta um novo cronograma, não anuncia a conclusão de uma etapa de construção e não define uma futura aplicação operacional para o equipamento.
O que está documentado é a continuidade do esforço técnico.
Para a Marinha do Brasil, a participação da DDNM representa a inserção de sua experiência no setor nuclear em um projeto que busca desenvolver uma nova classe de tecnologia no País.
Para a AMAZUL, a iniciativa reforça sua atuação como empresa estratégica ligada ao desenvolvimento de tecnologias nucleares e sua participação em projetos que envolvem pesquisa, engenharia e inovação.
O microrreator brasileiro ainda está em desenvolvimento. Mas a nova informação publicada no DOU mostra que os trabalhos avançam, com AMAZUL e Marinha atuando conjuntamente em estudos técnicos voltados ao desenvolvimento seguro da tecnologia.
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Texto e adaptação: Jhonanta Marcelino — Zona de Manobra
Fonte: Diário Oficial da União / Conselho de Administração da AMAZUL; AMAZUL; Instituto de Engenharia Nuclear (IEN/CNEN); Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN); Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN)
Fotos: Ana Paula Artaxo/ANSN e Gledson Júnior/IEN-CNEN

