A Independência do Brasil foi proclamada em 7 de setembro de 1822, mas o novo país precisava de algo além de uma declaração política: precisava de capacidade para fazer sua autoridade chegar às diferentes regiões do território. Em uma época em que o mar era a principal via de comunicação entre muitos dos centros populacionais brasileiros, a criação de uma força naval tornou-se uma questão estratégica. Foi nesse cenário que nasceu a Esquadra Brasileira, e com ela começou uma das primeiras grandes campanhas de Poder Naval da história do país.
Neste 7 de setembro de 2026, o Brasil celebra 204 anos da Independência.
A imagem mais conhecida desse processo é a de Dom Pedro às margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo, proclamando a separação de Portugal.
O episódio se transformou no grande símbolo da Independência brasileira.
Mas a história não terminou naquele momento.
A ruptura política anunciada em 1822 ainda precisava ser consolidada em diferentes partes do território, onde forças favoráveis a Portugal continuavam organizadas e onde a adesão ao governo estabelecido no Rio de Janeiro ocorreria de maneiras e em momentos distintos.
Na Bahia, por exemplo, a guerra prosseguiu até julho de 1823. No Maranhão e no Pará, a adesão ao Império também ocorreu somente meses depois. Na Cisplatina, forças navais brasileiras participaram do bloqueio de Montevidéu até novembro de 1823.
O próprio Arquivo Nacional destaca que o processo de Independência teve desenvolvimentos diferentes em cada província e que, em algumas regiões, houve guerras prolongadas após o 7 de Setembro.
É nesse contexto que o papel do mar ganha outra dimensão.
Uma independência precisava de uma força naval
A narrativa tradicional muitas vezes apresenta a Independência como um acontecimento concentrado em 7 de setembro de 1822.
A realidade histórica foi muito mais complexa.
A ruptura política precisava ser acompanhada pela consolidação da autoridade do novo governo sobre as diversas províncias que formavam o território brasileiro.
Naquele período, algumas regiões permaneceram ligadas às Cortes de Lisboa ou possuíam grupos políticos e militares que resistiam à separação.
A Bahia foi o principal exemplo.
Salvador permanecia sob controle de forças portuguesas comandadas pelo Brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo, enquanto forças favoráveis à Independência se organizavam no Recôncavo.
A guerra baiana se prolongou por mais de um ano, até a retirada das tropas portuguesas de Salvador em 2 de julho de 1823. A data permanece como símbolo da Independência da Bahia e foi incluída no calendário de efemérides nacionais pela Lei nº 12.819, de 2013.
A Bahia revela uma questão fundamental para compreender a Independência:
proclamar a separação era uma coisa; fazer com que ela fosse efetivamente reconhecida e sustentada em todo o território era outra.
E o mar seria fundamental para isso.

Primeira Esquadra Brasileira, formada no contexto da Independência do Brasil. Crédito: Trajano Augusto de Carvalho / Marinha do BrasilPor que o mar era estratégico para o Brasil recém-independente?
No início do século XIX, as condições de transporte eram completamente diferentes das atuais.
Não havia uma rede rodoviária capaz de conectar rapidamente as diferentes regiões do Brasil.
O litoral concentrava importantes cidades, portos, atividades econômicas e centros populacionais.
Nesse cenário, o mar funcionava como uma verdadeira rede estratégica de comunicação e mobilidade.
Controlar as águas significava ter capacidade para:
- movimentar tropas;
- transportar equipamentos e suprimentos;
- proteger linhas de comunicação;
- bloquear portos;
- impedir a chegada de reforços;
- perseguir forças adversárias;
- apoiar operações terrestres;
- projetar poder a grandes distâncias.
A própria Marinha do Brasil destaca que as operações navais foram fundamentais para apoiar a consolidação da Independência em diferentes regiões.
Em outras palavras, para um país de dimensões continentais, o mar era uma das principais vias para fazer o poder do novo Estado chegar às regiões mais distantes.

Nau Pedro I, primeira capitânia da Esquadra Brasileira, incorporada à força naval criada no contexto da Independência do Brasil. Crédito: Marinha do BrasilComo nasceu a Esquadra Brasileira
A Independência criou uma necessidade imediata: o novo Império precisava possuir uma força naval capaz de defender seus interesses e enfrentar os navios portugueses que ainda operavam na costa brasileira.
Navios deixados pelos portugueses foram incorporados à nova força. Outras embarcações foram adquiridas, enquanto o Arsenal de Marinha da Corte trabalhou na recuperação e preparação de meios para a campanha.
Entre essas embarcações estava a Nau Pedro I, que se tornou o primeiro navio capitânia da Esquadra Brasileira.
Também foram incorporados ou recuperados outros navios, entre eles a Fragata Niterói e o Brigue Cacique. O governo também adquiriu embarcações como os Brigues Maipu e Nightingale, posteriormente rebatizados Caboclo e Guarani.
Havia, porém, outro problema.
O Brasil recém-independente não possuía quantidade suficiente de oficiais e marinheiros brasileiros experientes para operar uma força naval daquela dimensão.
A solução foi contratar profissionais estrangeiros, especialmente britânicos, aproveitando a disponibilidade de militares europeus após o fim das Guerras Napoleônicas.
Foi nesse contexto que surgiu uma das figuras mais importantes da história naval da Independência.
Thomas Cochrane e a primeira grande campanha naval do Brasil independente
Em março de 1823, o oficial britânico Thomas Cochrane assumiu o comando em chefe da Esquadra Brasileira com o posto de Primeiro-Almirante.
Sua missão era utilizar a força naval para contribuir para a expulsão das forças portuguesas que permaneciam organizadas em importantes pontos do território.
Em 1º de abril de 1823, a Esquadra deixou a Baía de Guanabara.
O destino era a Bahia.
Salvador concentrava uma importante guarnição portuguesa e possuía apoio de uma força naval sob o comando do Chefe de Divisão João Félix Pereira de Campos.
A situação era particularmente complexa porque as forças brasileiras em terra já cercavam a cidade, enquanto uma flotilha sediada na região de Itaparica atacava embarcações que abasteciam Salvador.
A chegada da Esquadra brasileira acrescentaria uma nova dimensão ao cerco.

Almirante Thomas Cochrane, Primeiro Almirante da Marinha Imperial Brasileira e comandante da Esquadra durante a Guerra da Independência.Crédito: Marinha do BrasilBahia: o bloqueio que ajudou a derrubar a resistência portuguesa
Em 4 de maio de 1823, ocorreu o primeiro combate entre a força naval brasileira e os navios portugueses.
A ação não terminou com uma vitória brasileira. Após o confronto, os navios brasileiros recuaram.
Mas a campanha não havia terminado.
Com a chegada de reforços, o bloqueio foi retomado em 13 de maio.
A estratégia naval passou a contribuir diretamente para o isolamento de Salvador, dificultando o abastecimento da cidade e reduzindo a capacidade de resistência das forças portuguesas.
O resultado viria semanas depois.
Em 2 de julho de 1823, as tropas portuguesas abandonaram Salvador em um grande comboio naval.
A retirada não significou o fim da operação.
A Esquadra Brasileira passou a perseguir o comboio para impedir que os portugueses desembarcassem tropas, equipamentos e navios em outras regiões brasileiras.

Combate de 4 de maio de 1823, um dos principais confrontos navais da campanha brasileira para bloquear Salvador durante a Guerra da Independência. Crédito: Trajano Augusto de Carvalho / Marinha do BrasilNiterói: a perseguição que levou a Esquadra brasileira até Portugal
Um dos episódios mais impressionantes dessa campanha foi protagonizado pela Fragata Niterói.
Sob o comando do Capitão de Fragata inglês John Taylor, o navio recebeu a missão de continuar a perseguição à força portuguesa depois que Cochrane decidiu não comprometer toda a Esquadra em uma ação direta contra o grande comboio que deixava a Bahia.
A viagem foi extraordinária.
Entre 2 de julho e 9 de novembro de 1823, a Niterói navegou pelo Atlântico até as proximidades da foz do Rio Tejo, em Portugal.
Durante o cruzeiro, a fragata apreendeu 18 navios portugueses.
A operação demonstra uma das características essenciais do Poder Naval:
mobilidade.
Um navio de guerra não está limitado ao território onde sua força terrestre está presente.
Ele pode navegar milhares de quilômetros, perseguir uma força adversária, interromper linhas de comunicação e levar a ação militar para longe de sua própria base.
Para o Brasil recém-independente, essa capacidade possuía enorme valor estratégico.

A Fragata Niterói perseguiu o comboio português até a Europa durante a Guerra da Independência, em uma das mais notáveis operações navais do Brasil em 1823. Crédito: Marinha do BrasilMaranhão: o poder naval como instrumento de pressão
Depois da Bahia, a campanha avançou para outras regiões.
No Maranhão, a situação política permanecia instável, com uma Junta Governativa ainda ligada a Portugal e São Luís sob pressão de forças favoráveis à Independência.
Foi nesse cenário que Cochrane empregou a presença da Nau Pedro I como instrumento de pressão.
A chegada da força naval brasileira contribuiu para a mudança do equilíbrio político e para a adesão do Maranhão ao Império do Brasil no final de julho de 1823.
O Arquivo Nacional registra 28 de julho de 1823 como a data em que a Câmara Geral, reunida em São Luís, oficializou a adesão da província ao Império.
A própria fonte histórica destaca uma característica particularmente importante: o golpe final veio pelo mar.
Cochrane chegou à região controlando o canal de acesso ao porto de São Luís, enquanto as forças favoráveis à Independência já pressionavam a província por terra.
Mais uma vez, a força naval não precisava necessariamente destruir o adversário em combate para alcançar um resultado estratégico.
A presença de uma esquadra, combinada com o bloqueio e a ameaça do uso da força, podia alterar o cálculo político do adversário.
Pará: o bloqueio de Belém
No Pará, uma estratégia semelhante foi empregada.
Por determinação de Cochrane, o Capitão-Tenente John Pascoe Grenfell foi enviado ao Norte no comando do Brigue Maranhão.
A missão combinava comunicação política e pressão naval.
Grenfell levou às autoridades locais informações sobre a adesão do Maranhão à Independência e comunicou a possibilidade de bloqueio de Belém.
Em 15 de agosto de 1823, o Pará declarou sua adesão ao Império.
O episódio demonstra novamente como o Poder Naval podia atuar além do combate convencional.
O bloqueio de um porto poderia comprometer o abastecimento, dificultar a chegada de reforços e aumentar a pressão sobre as autoridades locais.
O mar, portanto, funcionava como instrumento militar e político.
Cisplatina: o último grande foco de resistência
A campanha também alcançou a Província Cisplatina.
Em março de 1823, forças navais brasileiras, sob o comando do Capitão de Mar e Guerra Pedro Antônio Nunes, já participavam do bloqueio de Montevidéu.
A cidade estava cercada por forças terrestres leais ao Imperador.
A tentativa da força naval portuguesa de romper o bloqueio fracassou.
O bloqueio naval e o cerco terrestre contribuíram para o desabastecimento da guarnição portuguesa, que acabou se rendendo em 18 de novembro de 1823.
Com isso, ocorreu a evacuação do contingente português do território brasileiro.
A consolidação da Independência havia avançado por diferentes frentes.
E o mar esteve presente em todas elas.
Mais do que navios: os primeiros elementos do Poder Naval brasileiro
A Guerra da Independência também revela uma lição que continua atual.
Poder Naval não significa simplesmente possuir navios.
Uma esquadra só consegue cumprir sua missão quando existe uma estrutura capaz de sustentá-la.
Em 1823, isso significava reunir:
- navios;
- oficiais;
- marinheiros;
- arsenais;
- manutenção;
- logística;
- treinamento;
- comando;
- planejamento;
- capacidade de operar longe da base.
A criação da Esquadra Brasileira foi, portanto, também um esforço de construção de capacidade estatal.
O novo país precisava transformar uma coleção de embarcações e homens em uma força naval capaz de operar em diferentes regiões de um território gigantesco.
Essa necessidade continua sendo uma característica fundamental do Poder Naval.
A tecnologia muda.
Os navios mudam.
As ameaças mudam.
Mas a necessidade de possuir meios, pessoal, logística, infraestrutura e capacidade de emprego permanece.
A Independência vista pelo mar
Quando o 7 de Setembro é lembrado, a imagem do Ipiranga naturalmente ocupa o centro da narrativa.
Mas observar a Independência pelo mar permite enxergar uma dimensão diferente daquele processo.
O Brasil era um território enorme, formado por regiões distantes e dependentes das comunicações marítimas.
A consolidação da autoridade do novo governo exigia capacidade para deslocar forças, transportar suprimentos, controlar portos, impedir reforços e pressionar grupos que ainda resistiam à separação.
Foi exatamente nesse ambiente que a Esquadra Brasileira encontrou sua primeira grande missão.
Ela não era apenas uma força destinada a combater navios portugueses.
Era um instrumento de mobilidade estratégica, bloqueio, logística, proteção das comunicações e projeção de poder.
De 1822 à Amazônia Azul
Mais de dois séculos depois, o cenário é completamente diferente.
O Brasil de 2026 possui tecnologia, infraestrutura e capacidades militares que seriam inimagináveis para os homens que tripulavam a Pedro I e a Niterói.
Mas existe uma continuidade estratégica.
O Brasil continua sendo uma potência marítima em potencial, com uma extensa costa, uma economia fortemente ligada ao oceano e uma área marítima de enorme importância econômica, ambiental e estratégica.
Petróleo e gás offshore, comércio exterior, portos, pesca, recursos naturais, cabos submarinos e linhas de comunicação marítima fazem do oceano um componente essencial da soberania brasileira.
É nesse contexto que surge o conceito de Amazônia Azul.
A expressão representa justamente a dimensão estratégica das águas sob jurisdição brasileira e dos interesses nacionais associados ao espaço marítimo.
Em 1823, a preocupação era impedir que forças portuguesas utilizassem o mar para manter a resistência contra o novo Estado.
Hoje, o desafio é muito mais amplo.
É necessário conhecer, monitorar, proteger e defender um espaço marítimo de enorme valor para o Brasil.

Navios da Esquadra da Marinha do Brasil durante operação no mar, representando a capacidade atual do Poder Naval brasileiro. Crédito: Marinha do Brasil204 anos depois, a soberania continua passando pelo mar
A Independência do Brasil foi proclamada em terra.
Mas sua consolidação exigiu uma campanha militar que alcançou diferentes regiões do território e envolveu diretamente o mar.
A Bahia foi bloqueada.
A força portuguesa foi perseguida pelo Atlântico.
O Maranhão sofreu pressão naval.
Belém foi submetida à ameaça de bloqueio.
Montevidéu permaneceu sob bloqueio até a rendição das forças portuguesas.
Em cada um desses episódios, o Poder Naval cumpriu funções diferentes.
- Combate.
- Bloqueio.
- Perseguição.
- Transporte.
- Pressão.
- Logística.
- Presença.
- Projeção de poder.
Essa é talvez uma das principais lições estratégicas deixadas pela Guerra da Independência.
Soberania não é apenas declarar a independência. É possuir capacidade para protegê-la.
Em 1823, uma jovem Esquadra Brasileira navegou pelo litoral e pelo Atlântico para ajudar a consolidar a autoridade do novo Império.
Em 2026, a Marinha do Brasil opera em um ambiente completamente diferente, utilizando navios de guerra, submarinos, aeronaves, sistemas de monitoramento, sensores, satélites, meios não tripulados e outras tecnologias para cumprir sua missão.
O contexto mudou.
A tecnologia mudou.
O ambiente estratégico mudou.
Mas uma realidade permanece:
para um país de dimensões continentais e com uma das maiores extensões de costa do mundo, o mar continua sendo parte inseparável da soberania nacional.
Por isso, compreender o 7 de Setembro também exige olhar para além das margens do Ipiranga.
A Independência foi proclamada em terra.
Mas uma parte decisiva de sua consolidação aconteceu no mar.

O NAM Atlântico, Capitânia da Esquadra brasileira, representa a capacidade atual do Poder Naval do Brasil na proteção da Amazônia Azul. Crédito: Marinha do BrasilLeia também
Por Jhonanta Marcelino
Zona de Manobra
Fontes consultadas: Marinha do Brasil — Centro de Comunicação e Memória da Marinha (COMEMCH); Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM); Arquivo Nacional; fontes históricas oficiais do Governo Federal.

