Iniciativa da AIEA reúne mais de 50 países para discutir segurança, regulação e aplicações civis de tecnologias nucleares no ambiente marítimo
A energia nuclear pode estar diante de uma nova fronteira: o mar. Com o avanço dos pequenos reatores modulares (SMRs) e o interesse crescente por novas formas de geração de energia, países e organizações internacionais começam a discutir como tecnologias nucleares poderão ser utilizadas em navios e estruturas marítimas no futuro.
É nesse cenário que a Marinha do Brasil passou a ocupar uma posição relevante em uma das principais iniciativas internacionais sobre o tema.
Nos dias 26 e 27 de agosto de 2026, em Washington, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) lançou oficialmente o ATLAS — Atomic Technologies Licensed for Applications at Sea, iniciativa criada para aproximar os setores nuclear e marítimo e construir uma abordagem internacional para o uso seguro, protegido e pacífico de tecnologias nucleares no ambiente marítimo.
Mais do que acompanhar o debate, o Brasil participará diretamente dos trabalhos que ajudarão a construir essa estrutura internacional. Representantes da Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ), juntamente com integrantes da Autoridade Marítima, academia e indústria, estarão envolvidos nos seis grupos de projeto estabelecidos pelo ATLAS.
É justamente aí que está a importância da participação brasileira.

Foto: Marinha do Brasil
O que é o ATLAS?
O ATLAS nasceu diante do interesse crescente por aplicações civis de tecnologias nucleares no ambiente marítimo.
Entre os cenários estudados estão navios civis de propulsão nuclear e usinas nucleares flutuantes, além das possibilidades abertas pelo desenvolvimento dos pequenos reatores modulares, conhecidos pela sigla SMR.
A tecnologia, entretanto, é apenas uma parte do problema.
Colocar um reator nuclear em uma embarcação ou estrutura marítima cria uma série de questões que precisam ser respondidas antes mesmo de qualquer aplicação comercial em larga escala.
- Quem licencia?
- Quais normas devem ser aplicadas?
- Como funcionará a fiscalização?
- Como será feita a proteção física do material nuclear?
- Como serão tratadas as salvaguardas?
- Quem será responsável em caso de acidente?
- Como os navios serão recebidos em portos?
- E como será tratado o combustível nuclear ao longo de todo o seu ciclo de vida?
São questões que ultrapassam os limites de um único país.
É justamente para enfrentar esse conjunto de desafios que a AIEA estruturou o ATLAS.
Seis grupos para construir uma estrutura internacional
O programa foi organizado em seis grupos de projeto, cada um dedicado a uma área considerada essencial para que futuras aplicações nucleares marítimas possam ser avaliadas de maneira segura e coordenada.
Os trabalhos abrangem temas como códigos e normas internacionais de segurança, estrutura jurídica e regulatória, classificação marítima, salvaguardas, proteção física nuclear e um roteiro para a implantação das novas tecnologias.
O Brasil terá participação nesses seis grupos.
Durante o lançamento, um representante da SecNSNQ também integrou um painel internacional ao lado de representantes de países como França, Estados Unidos e Reino Unido, discutindo justamente os desafios relacionados à legislação, regulação, segurança nuclear, proteção física, salvaguardas e responsabilidade civil no ambiente marítimo.
A dimensão da iniciativa ajuda a mostrar sua importância: o lançamento reuniu cerca de 600 participantes de mais de 50 países.
O trabalho técnico dos grupos começa ainda em 2026.

Por que a Marinha do Brasil está envolvida?
Para entender a participação brasileira, é preciso olhar para uma estrutura que já existe dentro da própria Marinha.
A Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ) possui atribuições relacionadas à regulação, ao licenciamento e à fiscalização de atividades nucleares associadas ao ambiente naval.
A estrutura brasileira não se limita aos meios militares.
A competência regulatória da Marinha também contempla embarcações e plataformas que utilizem reatores nucleares como fonte de energia para si ou para terceiros, incluindo aplicações civis ou militares.
Isso significa que, caso novas tecnologias nucleares marítimas avancem no futuro, questões como licenciamento, segurança e fiscalização precisarão ser discutidas também dentro da realidade marítima brasileira.
E é justamente nesse campo que a experiência acumulada pela Marinha ganha importância.
O Brasil já enfrenta esse desafio na prática
A participação brasileira no ATLAS não começou agora.
Em outubro de 2025, a SecNSNQ já havia participado de uma reunião bilateral com a AIEA dedicada ao tema. Na ocasião, foram discutidos desafios jurídicos, políticos, regulatórios e técnicos relacionados às futuras aplicações de tecnologias nucleares no ambiente marítimo.
Enquanto isso, o Brasil desenvolve sua própria experiência na área de segurança nuclear naval por meio do programa do Submarino Nuclear Convencionalmente Armado (SNCA) “Almirante Álvaro Alberto”.
O processo de licenciamento nuclear do submarino é conduzido pela SecNSNQ e acompanha diferentes etapas da construção do meio, envolvendo a análise da documentação técnica e dos requisitos de segurança relacionados à planta nuclear embarcada.
Essa experiência não significa que o ATLAS esteja relacionado diretamente à construção do submarino brasileiro.
São iniciativas diferentes.
O ponto de conexão está no conhecimento acumulado pelo Brasil sobre segurança, regulação e licenciamento de instalações nucleares embarcadas.
É esse conhecimento que coloca a Marinha em condições de participar de uma discussão internacional que vai muito além de um único projeto militar.
O que o ATLAS pode mudar?
A iniciativa da AIEA não significa que o mundo esteja prestes a receber uma nova geração de navios nucleares.
Também não significa que a Marinha do Brasil tenha anunciado a adoção de SMRs em seus navios ou a construção de novas embarcações nucleares.
O que está acontecendo é anterior a isso.
Países, organismos internacionais, setor marítimo, especialistas nucleares e autoridades reguladoras estão tentando construir as condições técnicas e jurídicas necessárias para avaliar essas tecnologias.
Isso é particularmente importante porque um navio nuclear não opera isoladamente.
Ele navega entre diferentes países, pode entrar em portos estrangeiros, depende de regras internacionais e envolve questões de segurança que ultrapassam as águas territoriais de uma única nação.
O mesmo vale para uma eventual usina nuclear flutuante.
Antes de essas tecnologias chegarem ao mar em escala comercial, será necessário definir como serão licenciadas, fiscalizadas, protegidas e integradas ao ambiente marítimo internacional.
Uma discussão que também interessa ao Brasil
Para o Brasil, o debate ganha uma dimensão adicional.
O país possui uma extensa área marítima sob sua responsabilidade e vem ampliando investimentos em monitoramento, tecnologia, energia e proteção de seus interesses no ambiente marítimo.
Nesse contexto, acompanhar a evolução das tecnologias nucleares marítimas significa também acompanhar uma possível transformação futura da infraestrutura energética e naval.
A participação brasileira no ATLAS permite que a experiência nacional seja colocada dentro de uma discussão internacional desde sua fase inicial.
Isso pode ser importante não apenas para acompanhar as futuras tecnologias, mas também para entender antecipadamente quais regras, padrões e requisitos poderão ser adotados internacionalmente.
Do NS Savannah ao futuro
Durante o encontro de lançamento do ATLAS, os participantes também visitaram o NS Savannah, em Baltimore, nos Estados Unidos.
O navio foi o primeiro navio mercante nuclear civil do mundo e começou a operar em 1962.
A visita carrega um simbolismo interessante.
A experiência da Savannah mostrou décadas atrás que a propulsão nuclear podia ser levada para o ambiente marítimo civil. Mais de seis décadas depois, o desenvolvimento de novos reatores e o surgimento dos SMRs estão fazendo o setor voltar a discutir possibilidades que pareciam distantes.
A diferença agora é que a discussão não pode se limitar à capacidade de colocar um reator dentro de um navio.
É necessário definir como essa tecnologia será regulamentada, fiscalizada e integrada ao sistema marítimo internacional.
A Marinha brasileira está na mesa
O ATLAS ainda está no começo.
Não há, neste momento, um anúncio de novos navios nucleares brasileiros nem uma decisão da Marinha pela utilização de SMRs em seus meios.
Mas existe algo concreto: o Brasil está participando dos seis grupos de trabalho que ajudarão a construir a estrutura internacional para lidar com essas tecnologias.
Para a Marinha do Brasil, isso representa a oportunidade de levar para uma discussão internacional a experiência adquirida em segurança e regulação nuclear naval.
Para o setor marítimo, significa acompanhar uma tecnologia que pode voltar a ganhar espaço em navios e estruturas offshore.
E para o Brasil, significa estar presente desde o início de uma discussão que poderá definir parte das regras do futuro.
O ATLAS, portanto, não é apenas uma iniciativa sobre reatores.
É uma discussão sobre como levar a energia nuclear para o mar sem deixar para depois as questões de segurança, responsabilidade, fiscalização e soberania.
E, desta vez, o Brasil não está apenas acompanhando a discussão. A Marinha do Brasil está sentada à mesa onde começam a ser construídos os referenciais para o futuro das tecnologias nucleares no mar.
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Créditos
Texto e adaptação: Jhonanta Marcelino — Zona de Manobra
Fonte: Marinha do Brasil / Agência Marinha de Notícias / Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)


